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A vida por trás da cracolândia*

24/03/2011

Jaqueline Corrêa

A vida deveria ser cheia de entusiasmo. Mas, em algumas realidades, ela é cheia de choro, lágrimas, sorrisos acanhados e angústia provocada pelo desprezo. E também é rodeada por outras vidas que assemelham-se entre si. A vida aqui tem forma. E tem nome. Cracolândia é o lugar que reproduz a sub-humanidade de pessoas sem identidade, que são conhecidas e reconhecidas por um predicativo julgador: viciados.

Desconfiados, alguns usuários se aproximam devagar. Não se importam em fumar seus cachimbos na frente de estranhos.

Mas é quando o sorriso nu parece sumir, que a alegria de outras vidas chega para resgatar. O “A gente da Comunidade” é um grupo formado por voluntários que não medem esforços para estender a mão. Em meio à chuva torrencial que caiu sobre a cidade de São Paulo no último domingo, 27, pessoas vestidas de branco abrem o caminho para a luz em meio ao abismo escuro, residência das centenas de usuários de crack.

A luz na escuridão

Enquanto a forte chuva cai, os voluntários se viram para deixar o espaço da melhor forma para atender a todos da melhor maneira. Nas barracas armadas no meio da rua, serviços de manicure, cortes de cabelo, doação de roupas e sapatos, lanches, além de livros e jornais, de conteúdo espiritual, são distribuídos aos desamparados.

Desconfiados, alguns usuários se aproximam devagar. Não se importam em fumar seus cachimbos na frente de estranhos. Mas não gostam de ser incomodados com flashes de máquinas fotográficas ou com perguntas insistentes. São jovens, adultos e crianças que aparentam ter a mesma idade do abandono. Estão todos maltrapilhos, maltratados, mas confortados pelo rápido efeito do crack. As moças, com a sensibilidade feminina cada vez menor, demonstram que apesar do corpo esquelético, rosto mirrado, sem dentes e roupas sujas e rasgadas, ainda conseguem exibir a vaidade de mulher. Elas procuram a fila das manicures. Querem estar belas e atraentes. Conversam sobre suas vidas, a forma como chegaram ao abismo, e reconhecem a falta de força para se levantar.

Ivanise, de 24 anos, é usuária, mas não se vê como viciada. Procura a droga quando quer, quando sente vontade. Quer um emprego e acredita que vai conseguir um serviço de ajudante geral. A bonita jovem magérrima, de cabelos compridos e enrolados, tem uma voz forte que revela uma personalidade autêntica. Saiu de casa quando a mãe ergueu a mão da violência e ela revidou. Não suporta ser mandada. Então, para não bater novamente na mãe, achou melhor sair e morar em uma quitinete. Mas foi no despejo do seu “quarto e cozinha”, como refere, que encontrou a rua. E nela, conheceu o crack.

Apreciando as mãos pintadas de rosa, Ivanise fica feliz com o trabalho dos voluntários. “É uma luz”, ela diz. Um incentivo para os viciados a saírem aos poucos das drogas. “Porque ninguém sai de uma hora pra outra”, ela explica.

Assim como ela, centenas de homens, mulheres e crianças desfiguram-se debaixo de marquises, dentro de prédios abandonados ou no meio da rua. Enrolados em cobertores, alguns dormem profundamente e não se importam com a forte chuva que cai sobre eles.

Mas é diante das figuras feridas, desprezíveis, mal vestidas e irreconhecíveis pelas drogas, que surge um ex-morador de rua disposto a ajudar.

A chance para um recomeço

Jailton Santana, 29 anos, é um baiano cabeludo que vê no “A gente da Comunidade” o incentivo que precisa para continuar.  É a fome com a vontade de comer que se unem nesse trabalho. Jailton viu um prédio de três andares abandonado. Avisou outras famílias moradoras de rua e as levou para lá. São mais de 20 que moram no prédio precário, cheio de infiltrações, goteira, lama, lodo e instalações perigosas. “Foi o que eu pude fazer”, ele reconhece.

Apesar da precariedade, este pode ser o primeiro passo de uma caminhada desafiadora: tentar mostrar um novo sentido de viver para aqueles que perderam a razão desde que mergulharam no vazio profundo das drogas. Mas quando a vontade de fazer é maior, os obstáculos reduzem-se tanto, que passam a ser despercebidos. É como observa Ezequiel Ferreira, um dos organizadores do evento. Ele quer transformar o salão do prédio em um núcleo de oração. Este desejo, audacioso, tem como objetivo ampliar a visão dos viciados para que enxerguem a vida de outra forma. É poder fazê-los ver que a droga pode não ser o fim, mas um desafiante ponto de partida para um recomeço promissor.

E é este o anseio da maioria: poder ter a chance de construir uma nova vida, um renascimento possível, a partir das pedras de crack.

Para uma boa parte dos usuários, o trabalho do grupo de voluntários é muito bem vindo. Porque a maioria deles se imagina como pessoas que não existem, ou como marginais que denigrem a ‘beleza’ da sociedade. Mesmo assim, no evento, eles puderam ver o carinho e a preocupação honesta dos agentes da solidariedade.

A sensibilidade por trás do vício

Do outro lado da rua ônibus, carros, motos. Outra vida completamente diferente passa margeando a cracolândia. Vidas que veem os viciados como poeiras que entopem os poros da cidade. E não conseguem identificá-los como pessoas que pensam, choram e sentem. É como sente Eduardo Gonçalves, de 33 anos. O pintor predial desempregado é viciado em crack e mais um engolido pela cratera da desigualdade. Não gosta muito de falar. Desconfia de que está sendo entrevistado e demora a responder. Mas quando ouve a pergunta sobre seus sentimentos, não resiste em expressar o que está à beira do coração.

“Esse evento é tão maravilhoso, porque estou só com a roupa do corpo e ela está toda molhada. Estas roupas que trouxeram vieram na hora certa. Agradeço a Deus e a vocês (voluntários) pela ajuda. Hoje eu pude me alimentar, me vestir e ter um pouco da atenção de alguém. Graças a Deus existem pessoas que se preocupam com a gente”, ele agradece.

Com os pés agora calçados, Eduardo segue de volta para a rua, sua casa, segurando forte um pacote de roupas e de lanche. De visual mudado após o corte de cabelo e a barba feita, despede-se com um aceno entusiasmado. O voluntário fica feliz pela ajuda. Eduardo, pela oportunidade de ser ouvido.

Texto publicado no http://www.arcauniversal.com/iurd/noticias/a_vida_por_tras_da_cracolandia-4008.html

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