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Quando a intuição forma um mestre

23/02/2011

Flavia Vasconcelos

Eu vi da coxia. Lá estava Armando Macêdo, o Armandinho, com seu chapéu enfeitado por um lenço e a roupa preta, traje já bastante conhecido nas suas andanças musicais. Eu o vi da coxia testando os instrumentos: seus companheiros, o bandolim e a guitarra baiana, esgotando deles tudo o que poderia ecoar, como se os espremesse e os aproveitasse até a última gota de som. Deles saíram todos os tons possíveis e inventados pelo talentoso Armandinho. Era o ensaio do segundo dia do lançamento do seu primeiro DVD solo, o Pop Choro, no Teatro Módulo, em Salvador, comemorando os 45 anos de carreira do músico.

“Tudo o que eu faço é apenas fruto de tudo que já ouvi e aprendi na vida. Eu absorvo e transmito na música”, explica Armandinho. Foto: Ivan Erick

Depois de certificar-se de que todos os instrumentos estavam harmoniosamente afinados, Armandinho passa por mim, em direção ao camarim, e me chama para conversarmos. Afinal, estava eu lá, com o caderninho em uma mão e uma caneta na outra, à espera de uma entrevista com o alquimista musical.

Entramos no camarim ocupado por muitas pessoas: amigos e colegas de trabalho do músico, todos muito alvoroçados e ansiosos, afinal, o show já ia começar. Sentamos eu e ele, um de frente para o outro em cadeiras improvisadas.  Armandinho é servido com uma dose de uísque com guaraná e iniciamos a conversa. Pelo tempo curto que tínhamos disponível, o roteiro da entrevista programado anteriormente  teve que ser modificado. Comecei pelas perguntas mais pontuais e, se desse tempo, passaríamos para as mais reflexivas.

Apesar da pressão, Armandinho demonstrou total atenção às minhas dúvidas jornalísticas e fez questão de criar um ambiente e um tempo só nosso. Entre um gole e outro de uísque, ele ia me ouvindo e respondendo com entusiasmo às questões. Foi uma entrevista desmistificadora, porém só fez abrilhantar ainda mais o artista, que nunca deixou de ser o menino talentoso de Osmar Macêdo.

Como se quisesse desvendar algum mistério, pergunto como ele consegue tocar o bandolim e a guitarra baiana de uma forma tão peculiar e ligeira e o que ele busca com a mistura de ritmos que sempre marcou o seu trabalho e está muito presente no seu DVD, o Pop Choro, que traz o rock, o chorinho, o pop e a música regional brasileira. Esperava uma resposta complexa e cheia de detalhes, mas o entrevistado me responde resumidamente: “É somente intuição.” Desconstruindo alguns mitos, ele diz que não sabe ler uma partitura sequer, e não busca uma coisa concreta quando mistura o rock com o chorinho, por exemplo. “Tudo o que eu faço é apenas fruto de tudo que já ouvi e aprendi na vida. Eu absorvo e transmito na música”, explica o artista.

O chorinho ele diz que conheceu através do pai. O rock fez parte de sua adolescência, quando conheceu os Beatles, Jimi Hendrix e por aí vai. Ele diz, como se fosse pouco, que as únicas coisas que criou foram o nome “guitarra baiana” – dado ao instrumento criado por Dodô e Osmar, inicialmente chamado de pau elétrico – e a ideia de “eletrizar” o bandolim e acrescentar uma quinta corda à guitarra baiana.

Ele fala do pai com muito orgulho e faz questão de pontuar as façanhas do homem que construiu a primeira guitarra (antes mesmo dos americanos), além de ter criado o trio elétrico, invenção que revolucionou o Carnaval da Bahia. “Meu pai inventou o trio elétrico que hoje é adotado por todas as crenças, classes e vertentes musicais. Os blocos afros, por exemplo, saem nos trios elétricos, esbanjando a sua beleza”, diz, envaidecido.

Já que o papo é o Carnaval, arrisco a perguntar se ele acha possível um retorno à estrutura original da festa, com blocos sem cordas, por exemplo. Ele nem titubeia: “De forma alguma! Nunca mais!”. Explica que o Carnaval atual envolve muito dinheiro, muito investimento e abrir mão disso é dificil. “Nem o governador tem o poder de intervir nessa estrutura!”, brinca. Para ele, o formato do carnaval de hoje não é totalmente prejudicial e nem necessariamente pior do que antigamente, apenas é diferente. “O carnaval apenas mudou o foco, antes o que prevalecia era a diversão, a cultura e hoje é muito mais do que isso e está atrelado ao lucro”.

Tocando no assunto das cordas dos blocos de Carnaval – um tema polêmico e já discutido por artistas e estudiosos que veem nesse formato um estímulo à segregação racial – Armandinho (que desfila num trio independente) pensa um pouco e responde: “Veja, eles dizem que a corda é por questão de segurança do folião. O meu bloco sem cordas não é nenhum tipo de protesto, apenas é porque a minha música já é a própria segurança, a vagabundagem toda adora a minha música! Eles se divertem!”

E entre risos de ambas as partes, tanto da repórter quanto do entrevistado, termina a entrevista. Armandinho precisava se arrumar para mais um espetáculo, onde ele mostra sua habilidade incomum com a música instrumental e com as cordas do bandolim e da célebre guitarra baiana. O show, não precisa nem descrever. Foi impressionante. A cada solo de bandolim ou de guitarra baiana, a plateia se surpreendia e os queixos caíam. Agora está mais do que provado: a sensibilidade e a intuição sozinhas também formam um mestre. A ciência é só mais um ingrediente.

*Matéria feita para o blog jornalístico À Queima Roupa (www.aqueimaroupa.com.br)

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