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Sushi

16/02/2011


Camila Galvez

Ele gostava de sushi, e era quase um ritual obsessivo. Toda sexta-feira à noite, saia da aula e rumava para o restaurante pequenino e quase sempre vazio naquele horário. Observava o sushiman preparar o rolinho, primeiro a alga, depois o arroz e por fim o peixe. Sentia cheiro de areia e de mar e de infinito enquanto observava o colorido do peixe se juntar ao branco do arroz e o escuro da alga.

"O mar, que era tão grande, ficava pequeno ali, naquele diminuto rolinho de sushi"

Não gostava de molhos nem de nada que atrapalhasse o sabor. Achava um crime encharcarem o sushi com shoyu. Como ficava a experiência do sabor inusitado se se quebrasse o encanto molhando o arroz? Não, não era japonês, tampouco do Oriente, mas tinha certeza que em uma de suas muitas vidas havia vivido por lá.

Ele julgava gostar tanto e apreciar tanto aquela arte milenar simplesmente porque ela o lembrava da força do mar. Imperioso, poderoso, ruidoso, regido pelas mares. Mesmo diante de tanta força e poder, sabia ser simples ao abrigar a vida do peixe que serviria depois de alimento par ao homem. O mar, que era tão grande, ficava pequeno ali, naquele diminuto rolinho de sushi. Mas para ele era exatamente aí que morava a graça de se alimentar dessa forma e, de alguma maneira, sentir-se conectado com o mar.

Sabia que era uma espécie de amor, um estranho amor que, como uma donzela das antigas, fazia com que ele retornasse todas as sextas-feiras para sentir o som e ouvir o gosto do mar nos sushis. Era dessa forma única que conseguia sentir-se conectado consigo mesmo. Ia sempre só, para observar rodas de amigos que esporadicamente apareciam por lá e reclamavam da demora. Ele entendia. Não tinha pressa. Sabia que o preparo de um alimento que traz tanto simbolismo e tanto movimento cultural tendia mesmo a demorar. Não se importava. Esse era o seu ritual. Olhar o colorido, sentir o sabor, cheirar o mar, tocar os palitinhos que, mesmo depois de tanto tempo, ainda sentia dificuldades em segurar.

Quando provava um novo sushi, invariavelmente sentia-se naquele mesmo mar. Não era exatamente o sabor o responsável pela sensação, ele sabia, mas sim o simbolismo implícito naquele simples ato de abrir a boca e degustar. Todos os seus sentidos eram avivados pelo alimento, mas era o cheiro de mar que se fazia mais presente, mais intenso, mais forte, fazendo com que se lembrasse de tudo o que já vivera nas poucas oportunidades que tivera de estar diante da imponência do mar, de suas ondas quebrando e fazendo espuma e arrastando tudo o que estivesse pelo caminho em noite de tempestade.

O sushi era a prova de que algo continuava vivo dentro dele. O colorido era a prova de que as coisas voltariam a fazer sentido. O sabor era o gosto que ele gostaria de ter pela vida. Tudo ali, concentrado num pequeno rolinho que trazia consigo tantas lembranças, tantos sabores, tantas vidas.

Chamassem-no louco, ele não se importaria. Era movido pela água, pelo mar, pelo sushi das sextas-feiras. Por que só às sextas? Não sabia. O que podia afirmar com certeza é que o sushi tinha sabor de mar, amor e saudade. Não se culpava mais. Apenas apreciava. Era aquilo, na verdade, que o fazia continuar. E lembrar-se da forma como ela costumava sorrir quando, às sextas-feiras, ele aparecia feliz em sua casa e a convidava simplesmente para ver o mar pelos olhos de um sushi.

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