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Levite Bahia, um artesão que faz moda para quem tem atitude*

26/11/2010

Flavia Vasconcelos

Na Rua Carlos Gomes, uma das mais movimentadas de Salvador, onde pessoas passam aos montes, sempre apressadas, em um ritmo frenético, que começa prematuro, logo de manhã, num clima que Martha Medeiros, em seu despertar poético, descreveria “A cidade acordou antes de mim/ Me serviu buzinaços na cama/ E caminhões despejando cimento…”, existe um espaço em suspensão, destoando das muitas lojas enfileiradas. Uma pausa para a contemplação. É o Atelier de Levite Bahia, estilista baiano e inventor de uma moda bem particular. Uma moda de atitude e feita para quem tem atitude.

Levite Bahia: "Eu confio no meu trabalho e me disponho a ousar". Fotos: Flavia Vasconcelos

O atelier lembra os jardins suspensos da Babilônia, construídos pelo rei Nabucodonosor, que exibiam do alto, flores fragrantes e esculturas, por entre piscinas e fontes glamourosas. Lá no atelier, os vestidos ficam suspensos, revestindo as paredes, em um movimento sinuoso dos manequins. As flores estão nos vestidos e as esculturas nos corpos fictícios, encobertos pela moda levitiana. As roupas são feitas da mistura de tecidos, que – na diferença – se harmonizam. É como diz o estilista, com um humor contagiante: “Tô igual ao Festival de Verão, misturando tudo!”. Na roupa de Levite, a renda, a malha, o algodão e qualquer outro tecido que enquadre, se encontram, formando um elegante conjunto.

Levite Bahia, nome de batismo e sobrenome fruto da criatividade, nasceu em Utinga, na Chapada Diamantina. Filho de pais pernambucanos, o estilista de olhos claros e brilhantes sempre gostou de moda. Para ele, ela chegou de mansinho e se instalou: “A moda veio até mim, me adotou, me tomou e eu nem me mexi. Parece até obsessão”, comenta.  Veio para Salvador com, aproximadamente, 21 anos para estudar e trabalhar. Ingressou no curso de corte e costura do Serviço Social do Comércio (Sesc), mas não concluiu, por se tratar de uma turma predominantemente de mulheres. “Eu não entendia a linguagem feminina”, explica. Resolveu partir para a prática do trabalho, vendendo bolsas customizadas com tecidos de decoração e retalhos, nas praias da cidade e, a partir daí, foi mostrando nas ruas a sua criatividade.

Passou a frequentar as feiras livres da Lapa (centro de Salvador) e Pelourinho, organizadas pelo Sesc, das quais ele relembra com saudade. Nesses eventos, conheceu pessoas influentes e um espaço interessante para mostrar o seu trabalho. Abriu um atelier no Pelourinho, ambiente onde afirma ter aprendido a ser o que é, e o que faz. Lá, ele descobriu a moda artesanal e se encontrou. Conheceu o estilo africano, indígena e hoje, define seu trabalho como mestiço, “como nossa gente é”, completa. Para Levite, o Pelourinho é uma verdadeira vitrine, uma fonte de inspiração, já que roupas do mundo inteiro passeiam por ali.

‘Quem não quer ser notado, não veste Levite Bahia’

Durante os 25 anos em terras soteropolitanas, Levite Bahia já participou de desfiles em eventos como a Expo de Moda e o Made in Bahia, promovidos pela empresária Vera Pontes, e organizou desfiles individuais nas praças públicas do Pelourinho. Hoje, no seu atelier, promove cursos de reciclagem de roupa, estamparia e outras técnicas, expõe as suas criações para serem vendidas e coleciona clientes famosos como Xandy, Tonho Matéria, a banda Mambolada, Salviano Pessoa (que participou do programa Ídolos, da Record), o grupo Canto In Verso e muitos outros. No teatro, foi requisitado para vestir o elenco da peça Cabaré da Rrrraça, de Márcio Meirelles, entre outras companhias menores.

Moda "levitiana": diferenças que se harmonizam

Mas, o que estimula o artesão da moda, como se auto intitula, é o “povão de atitude, a negrada descolada”, admite. Segundo ele, apostar e viver do que acredita, vendendo um produto que parte de dentro, sem acompanhar as tendências ditadas pelo padrão internacional da moda é uma tarefa difícil e só faz sentido quando ele vende as suas peças para “aquela gente que junta dinheiro, para poder comprar uma roupa especial, para ficar mais bonita em dias de festa”.

Embora enfrente as barreiras do mercado, criadas para selecionar – nem sempre os melhores – estilistas de ponta, Levite Bahia aposta que o futuro da moda é o artesanato. Para ele, o artesão da moda já é uma profissão. Só precisa ser reconhecida. O principal ponto negativo nessa realidade futura é que  “quem cria é o artesão, mas o acadêmico é quem tem o dinheiro. O mercado te ajuda, quando não te suga”, adverte. Durante os dois anos em que montou seu atelier na Carlos Gomes, o estilista ainda não conseguiu vender uma peça a preço justo, condizente com o capricho e a criatividade presentes em cada uma delas. Porém, nos áureos tempos do Pelourinho, até conseguia equilibrar o preço. Para Levite, o Centro Histórico já esteve mais movimentado comercialmente, o que empolgou muitos artistas: “O Pelourinho faliu e eu fali junto com ele”, diz, justificando a sua mudança para a movimentada rua Carlos Gomes.

De olho no futuro, Levite pensa em criar um projeto que envolva cursos de costura, customização e reciclagem de roupas para o público de terceira idade e jovens de baixa renda. Para viabilizar esse empreendimento, pretende estruturar a ideia e buscar parcerias tanto do município quanto do governo. “Todos têm dentro de si inteligência e capacidade. Somos um projeto que já nasce pronto, só falta aprimorar.” Para ele, o sucesso depende de talento, oportunidade e ousadia. “Eu confio no meu trabalho e me disponho a ousar, coisa de leonino”, reflete.

Levite Bahia é um artista que vê na moda um ideal de vida. Sonha em espalhar seu trabalho pelas ruas das cidades, entre as pessoas que realmente dão vida aos lugares por onde passam. A “negrada descolada” a que ele se refere é a sua maior vitrine. Levite é vivo,  original e complexo na sua simplicidade, e assim, exatamente assim, são as suas roupas. É como disse, sem meias palavras: “Quem não quer ser notado, não veste Levite Bahia”.

Contatos:

Atelier: Rua Carlos Gomes, n 99. Tel: (71) 3011-7099/ 8702-7099

Myspace: http://www.myspace.com/levitebahia

E-mail: levitebahia@hotmail.com

* Publicado originalmente no site À Queima Roupa (www.aqueimaroupa.com.br)

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4 Comentários leave one →
  1. 26/11/2010 12:40

    Flávia! Que demaaai! Esse bahiano arretado merece um perfil, heim?! Gostei muito do texto. Acho que você conseguiu encaixar muito bem as ótimas frases dele no texto, dando um ritmo bem legal. Parabéns. Agora me conta? Fiquei curiosa para saber se alguma peça de roupa dele você tem? Rs! Quero ver!!! rs!

  2. Maria Idalina Peyroteo permalink
    27/01/2011 23:48

    Dona Flávia amei sua reportagem sobre o GRANDE estilista Levite Bahia, ele retrata tudo o que realmente ele é. Sou Portuguesa de origem Angolana e quiz Deus que conhecesse em 2002, esse ser humano maravilhoso que ninguém conhece como pessoa. Adquiri suas roupas que já fizeram sucesso quer em Lisboa, quer em Luanda. Tornamo-nos amigos e adoptei-o como ” meu sobrinho” e ele aceitou. Por causa dele me apaixonei pela Bahia pois foi meu cicerone nessa primeira viagem e me mostrou coisas maravilhosas. Desde aí eu vou com meu esposo à Bahia duas a três vezes por ano e estamos pensando ir morar mais tempo lá do que em Portugal.
    Parabéns dona Flávia é bom dar valor ao que é nosso.

    • Flavia Vasconcelos permalink
      01/02/2011 1:31

      Maria Idalina, que bom que gostou! Levite é mesmo uma figura importante . Merece todos os destaques possíveis! Caso venha morar aqui, ja se sinta bem acolhida! A Bahia sabe muito bem abrir as portas com carinho. um beijo e obrigada!

  3. Janete permalink
    08/09/2011 14:03

    levite você tem a mão de deus,nos trabalho maravilhoso reciclagens e moda ,reformas e tudo que você faz.Eu conheci através de joelma.Agora eu vou visita-lo

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