Skip to content

Humanização sustentável

23/11/2010

Nathalia Triveloni

A mãe está enlouquecida. A criança olha para o prato de comida com certo desprezo. Não há meios de convencê-la que o alimento é o combustível para que seu corpo funcione harmoniosamente. De repente, o argumento surge de uma história. “Você sabia que dentro da gente existem inúmeros soldadinhos?”. A menina diz que não. “Pois bem, se não comer, todos os soldados vão morrer e você ficará muito ma!”. Prontamente, a guria agarra o garfo e começa a abastecer a tropa.

Anos depois, aquela pequena torna-se mulher. Talvez por alguma malcriação de gente grande, o batalhão que vive dentro dela se rebelou. Seu labirinto é o quartel general e refém de alguma causa. A impressão que tem é a de que todo o exército gira incansavelmente em sua cabeça.

Santo André, inverno de 2010. Depois da crise de labirintite, esta é a primeira vez que sai sozinha. Enquanto espera o farol fechar para atravessar a rua, uma voz cordata lhe pede: “Moça, por favor, será que você poderia ajudá-la a atravessar?”. Naquele momento, ela se esquece de seu problema. Junto ao rapaz que lhe pediu, segura a mão da garota sorridente que possui deficiência na perna.

O outro lado é alcançado e o agradecimento vem em dose dupla. As ruas andreenses são quase que totalmente desprovidas de acessibilidade para os deficientes físicos. Salvo uma ou duas guias rebaixadas, é quase que impossível, até para quem não possui dificuldades, andar tranquilamente.

Recentemente, a prefeitura da cidade do ABC paulista adotou a “Lei da cidade limpa”. A preocupação é para além da poluição visual. Placas, displays e os famosos “totens” foram proibidos de serem colocados em calçadas para que os cadeirantes tenham livre acesso. No entanto, já neste início de campanha política, aqueles que fazem as leis, aparecem as desrespeitando em forma de fotografia no local de pedestres.

Mais um cruzamento e isso quer dizer que é outro obstáculo para a menina que tem dificuldade em caminhar. Novamente, a mulher do labirinto confuso oferece ajuda. Esta ação se repetirá mais uma vez. Isso a faz pensar na cena do filme “O fabuloso destino de Amelie Poulain”, quando ela conduz um deficiente visual e lhe narra a cidade francesa. O dia daquele homem foi mudado, assim como este.

Na última travessia, elas se apresentam. Milene não desiste de caminhar e é uma pessoa feliz. Ela faz questão de apresentar seu amigo com uma frase que marcaria sua companheira de caminhada para sempre: “Eu não ando direito e ele é parcialmente cego. Então, ele é minha perna e eu sou os olhos dele”.

A garota afrontada pelo problema de labirintite e relutante para que isso não a torne dependente de ninguém, encontra naquela guria a resposta para aquilo que chama de humanidade sustentável. Assim como os soldadinhos que a formavam quando criança, os três, ao atravessarem a rua, formam um único corpo. Um dá sustento ao outro e os dois juntos são o equilíbrio que lhe falta.

Quando falamos em sustentabilidade, nos atemos apenas às questões ambientais e não percebemos o significado amplo desta palavra. Em sua raiz, ela significa “defender” e “manter vivo”. Para que no futuro possamos ter um planeta que se auto-alimenta, é necessário humanizarmos a manutenção do respeito entre as pessoas. Uma relação de consciência entre homem e natureza é fruto de corpos vivos em simbiose.

Anúncios
2 Comentários leave one →
  1. Simone permalink
    25/11/2010 15:32

    Parabéns, Natália! Ótimo texto.

  2. Fernanda Campos Costa permalink
    26/11/2010 12:13

    Perfeito! Que bom que trouxe esse olhar! Realmente muitos não fazem nada a respeito, pois acham que pequenos gestos não fazem a diferença. Mas fazem sim. Almir Sater já dizia sabiamente que um mais um é sempre mais que dois. Transformando a nós mesmos, internamente, refletimos isso para o mundo. Adorei o texto e o título. Me inspirei com a aula do Ed desta semana e também fiz um texto nessa linha. Vou compartilhar com vocês por aqui. Parabéns Naty!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: