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Histórias que a demolição não apaga*

19/11/2010

Camila Galvez

A história das Indústrias Reunidas Matarazzo se confunde com a vida de Josefina Perella. De seus 85 anos, 60 foram vividos na mesma casa, no número 10 da atual Praça Comendador Ermelino Matarazzo, em São Caetano. Dali, dona Josefina assiste à demolição das antigas ruínas promovida pela prefeitura, que pretende erguer um parque em parte do terreno.

Anos antes, em 1949, São Caetano se emancipava de Santo André e dona Josefina se casava com Emígdio Perella. O marido da aposentada trabalharia por 50 anos como mecânico das oficinas de fundição do grande império industrial.

Império Matarazzo. Fotos: Acervo do Centro de Documentação Histórica da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul

Entre os colegas, Emígdio não era conhecido pelo nome, muito menos pelo sobrenome de sua família, tradicional no município. Josefina se lembra do dia em que, recém-casada, precisou procurar o esposo na fábrica para resolver um problema em casa. Quando se dirigiu ao porteiro da empresa, pediu:

– Quero falar com o senhor Emígdio Perella.

– Mas quem é Emígdio Perella? Só conheço o Mosquito!

Mosquito era o apelido de boleiro de seu Emígdio, que jogava no time formado por trabalhadores da Matarazzo. Naquela época, a maioria dos funcionários era conhecida pelo apelido na empresa. “Esse tempo era uma beleza. O bairro estava sempre movimentado, a fábrica funcionava em três turnos, sem parar. A praça parecia um formigueiro”, relembra. Nas décadas de 1940 a 1950, auge das indústrias na cidade, 10 mil pessoas passavam por lá durante os três turnos, todos os dias.

Saudades dona Josefina também sente do marido, que morreu há nove anos. Para ela, o que restou da Matarazzo hoje é o barulho e a poeira da demolição.

Império em ruínas

Josefina Perrela vivia há 46 anos na mesma casa quando Everton Calício começou a se interessar pela história dos Matarazzo. Era 1995, ano em que a mansão construída pelo Conde Franscesco Matarazzo na avenida Paulista no fim do século 19 veio abaixo após uma liminar judicial.

Aos poucos, com sua curiosidade de menino, chegou onde muita gente não conseguiu – ou não quis. Embrenhou-se pelas ruínas de São Caetano, jogou bola no terreno contaminado por mercúrio e BHC (hexaclorobenzeno), entrou no prédio da antiga Cerâmica Matarazzo e viu um estoque inteiro de azulejos e fornos de cerâmica abandonados. Tudo isso serviu para aguçar a vontade de conhecer mais sobre o antigo império em ruínas.

A indústria nos anos 1940

De acordo com os estudos de Calício, as Indústrias Matarazzo se instalaram em São Caetano em 1912 após o arrendamento das instalações da antiga fábrica de velas, glicerina, sabões e óleos vegetais Pamplona. A empresa começou a se desenvolver por volta de 1926, quando o Conde inaugurou no que seria chamado de Núcleo São Caetano a primeira fábrica de raion (seda artificial) no Brasil, a Visco-Seda Matarazzo.

Na década de 1920 também foi erguida a Vila Matarazzo, conjunto de habitações populares para operários, verdadeiro luxo na época. Em uma dessas casas, de pé até hoje mas totalmente descaracterizadas, vive Ana Freitas. Por 11 anos ela serviu café para os “chefões” da Matarazzo. “Era o tempo das vacas gordas”, relembra.

Desconfiada, Ana hesitou em falar sobre o assunto, mas acabou por ceder após me garantir que comprou a casa onde vive e pagou direitinho. “No começo morava de aluguel, cinco cruzeiros por mês. Era barato. Depois ofereceram para comprar “, diz.

Nas memórias de Ana, a mais marcante é o casamento de Marina Matarazzo Suplicy, neta do conde Francesco Matarazzo Jr, conhecido como Conde Chiquinho e herdeiro do império. “Fiquei 15 dias na mansão da família no Morumbi para ajudar na cozinha. O conde Chiquinho gostava de ficar entre as panelas, olhando o que a gente fazia e dando palpite. A mãe da noiva e filha dele, dona Filomena, aparecia sempre e nos tratava como igual”, afirma.

Ana me deixa de lado para cuidar do feijão no forno. As memórias da Matarazzo ficam para trás quando ela fecha a porta da casa.

Vida na Cerâmica

A partir da década de 1930, é instalada em São Caetano a fábrica de louças Claúdia, uma das maiores do setor de louças e azulejos no país. A produção diversificada, marca da Matarazzo, fica evidente quando se observa o leque de produtos: seda, louça e azulejo, papel, papelão e celulose, ácidos, soda caústica, hexaclorobenzeno, acetileno, carbureto de cálcio e ácido sulfúrico. “A estratégia empresarial dos Matarazzo era a de aproveitar os insumos restantes dos processos para dar origem a novos produtos”, explica Calício.

Essa característica também levaria o império à ruína, na opinião do pesquisador. “A Matarazzo não se especializou em nada e foi engolida pelas empresas estrangeiras e a indústria automobilística por volta da década de 1980”, afirma.

Mas o que começou a enterrar de verdade a empresa foi a morte de um operário por contaminação por BHC, a primeira que ocorreu no Brasil, no fim dos anos 1980. A produção química foi totalmente encerrada, permanecendo em funcionamento em São Caetano apenas as unidades de fábricação de TNT (tecido não tramado) Matflex, e a Cerâmica Matarazzo, que fabricava azulejos.

Também na década de 1940

No prédio da Cerâmica Matarazzo, cercado por muros altos cobertos de plantas e pichações e fechado por portões enferrujados, a sensação de abandono é evidente. Alguém mais atento, porém, é capaz de reparar em um portão com cadeado novo, na campainha que ainda funciona, em uma janela pela qual é possível ver luz e ouvir música e barulho de louça lavada.

Severina de Oliveira, aposentada, 67 anos, atende meu chamado e conversa comigo no portão. No começo, não quer dizer seu nome, mas aos poucos se solta. O marido, Mateus Gomes Mariano, ainda trabalha na empresa na qual começou aos 17 anos. Hoje atua na fábrica de Ermelino Matarazzo, na Capital.

Ela trabalhou em São Caetano por 25 anos. Foi demitida em 2008 quando a Matflex, última fábrica do antigo império, fechou suas portas. “Não tenho do que reclamar. Me aposentei na Matarazzo, criei meus filhos aqui e ainda moro nessa casa sem pagar aluguel, porque fico olhando a propriedade. É uma pena que tudo acabou”, lamenta.

Mais gente mora na antiga Cerâmica abandonada. Uma senhora chega a atender a campainha. “Não tenho a chave. Não vou abrir. Não moro aqui”.

O abandono persiste, e tentar falar com a família sobre o assunto não foi possível. O império ruiu e se fechou para o mundo. Mas as lembranças de quem viveu essa época de desenvolvimento e crescimento continuam vivas, mesmo que escondidas pelos escombros de um passado que, infelizmente, continua se perdendo dia a dia.

São Caetano vai preservar fachada de antiga fábrica

A demolição das paredes que compunham parte das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo começaram em outubro e devem durar cerca de dois meses. A prefeitura tem a intenção de erguer um parque no local, mas ainda depende de autorização da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo).

A administração apresentou ao órgão estadual estudo de investigação ambiental e avaliação de risco da área. De acordo com a Cetesb, esses estudos definirão possíveis medidas de remediação para o local e somente então serão autorizados usos futuros para a área.

O imponente prédio que virá ao chão em fotografia dos anos 1960.

No início da demolição, a intenção do secretário de obras da cidade, Júlio Marcucci, era preservar o prédio que está instalado no terreno para abrigar uma escola de educação ambiental. No entanto, devido ao estado de abandono da construção, apenas a fachada da Praça Comendador Ermelino Matarazzo ficará intacta.

Todo o processo de demolição está sendo documentado, conforme Marucci. “As paredes foram filmadas e fotografadas antes de vir abaixo. Todo esse material será reunido posteriormente e apresentado na escola de educação ambiental como uma forma de fazer com que as crianças conheçam a história da industrialização do município, que começou com a Matarazzo”, garante.

* Matéria publicada originalmente no Diário do Grande ABC de 14/11/2010.

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7 Comentários leave one →
  1. Simone permalink
    19/11/2010 18:08

    Camila, gostei muito da reportagem. Moro muito próxima a São Caetano e vou olhar com outros olhos quando passar em frente à Matarazzo.

  2. Jaqueline permalink
    19/11/2010 20:43

    Muito bom, Camila. A história das Indústrias Matarazzo contada através da vida das pessoas deu um verdedeiro ar à matéria. Um grande abraço!

  3. carolina permalink
    24/03/2011 13:51

    Olá,
    Sou aluna da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e vou realizar nesse ano um trabalho sobre o terreno em questão, da antiga fabrica da familia Matarazzo, e por isso, gostaria de obter mais informações e possiveis contatos que você tiver, que possam me ajudar.
    Achei a matéria muito interessante, esclarecedora e importante para a população de São Caetano!
    Carol

    • Juan permalink
      30/03/2011 20:43

      Olá!

      Tbm sou aluno de Arquitetura, e meu TFG terá esse terreno como base! Parabéns pela matéria!

      • carolina permalink
        19/05/2011 17:05

        De que faculdade vc é? poderiamos trocar informações sobreo terreno.
        Ate mais,
        Carol

  4. Douglas permalink
    29/04/2011 10:32

    Olá,

    Tenho curso de História e o tema de meu TCC foi a falência do grupo Matarazzo…estive na antiga fábrica em São Caetano ano passado para obter fotos para minha pesquisa e, sem cerimônias, fui ameaçado por um segurança muito mal-educado do local. Disse que “eles” iriam me processar caso continuasse fotografando, etc….até anotou a placa de meu carro!!! O que será que tanto querem esconder? Creio que simplesmente querem impedir a preservação de um patrimônio histórico como esse…

  5. carolina permalink
    30/05/2011 10:48

    Douglas,
    você tirou fotos por fora ou por dentro? Não acredito que te ameaçaram!! sabe que já fui lá varias vezes e tem gente que me olha estranho quando tiro fotos. Parece que todo mundo tem medo, que não querem que nada seja pesquisado, devem ter o que esconder mesmo!! hehehe Infelizmente não consegui tirar fotos de dentro, pq a CETESB fechou o local pela contaminação, mas queria muito. Se vc tiver fotos de dentro por favor me passe!!! Me passe td o nome do seu TCC e faculdade pra procurar, toda informação a mais é importante!! ruim pesquisar e olhar td por fora só, com mapas e etc.

    Carol

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