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O antiquário

08/11/2010

Isa Soares

Não vem no Guia da Folha e parece que estamos a entrar em casa de alguém. Na Cardeal com a Fradique, as peças de mobiliário antigo dão-nos as boas-vindas, da vitrine. Tocamos à campainha, entramos e ficamos sem saber o que fazer, se cumprimentar quem nos abriu a porta, e sorrir de volta, entrando em pânico porque não trouxemos nada, ou tentarmo-nos concentrar no liquidificador, secador de cabelo de cabeleireiro, máquina de projecção, duas, cavalinho de pau, e outras peças absolutamente maravilhosas, do mais vintage que pode haver, – que povoam o generoso hall.

Teremos de deixar o maravilhoso mundo vintage para uma visita durante o dia, o Antiquário propriamente dito funciona em horário comercial.

Um banheiro social, com a tradicional porta larga, e o interior a fazer lembrar também o antigo. Não tenho coragem de lá ir. Passamos a ante-câmara para fumadores, ao ar livre, como convém, e descemos as escadas. A cozinha, estilo americano, nem a geladeira cabe lá dentro. Passamos mais uma ante-câmara e um banheiro, com um candelabro de velas, a única iluminação disponível, com trinco, é a esse que vou, mais um hallzinho, o caixa, e chegamos finalmente à sala. É a sala aonde o Manu toca e canta daqui a pouco, lá para as 10, quem sabe 11 da noite. Parece que arredámos os sofás, dispusemos umas mesas e ali ficamos, em família ou quase, É Domingo mas na sala do lado, a de jantar, um grupo de meninas chilreia alto demais.

Enquanto esperamos, seguimos-lhes o exemplo e pedimos vinho. Tinto, claro.

É este o ambiente pretendido por Berenice, que gosta de cozinhar e viu no Antiquário uma oportunidade de juntar o útil ao agradável e se dar a esse prazer, nos dar esse prazer.

Duas pipas, violoncelo, Manu e colunas, velas de um lado, 8, num candelabro preto, a imitar o antigo e um candeeiro em bom e largo. Um espelho divide a parede, milimetricamente.

Qual a probabilidade de um cliente ter um CD com um encarte com a letra da música que alguém sugeriu e o Manu esqueceu, num aparente ataque de amnésia? No Antiquário tem.

Quem dera que as vozes na minha abafassem a galinhagem proveniente da sala do lado, o som horrível e graças a deus imperceptível da opinião alheia.

Tudo é esperado e ao mesmo tempo não, nada, assim, é como se o Manu estivesse a tocar e a cantar na sua sala e você só tivesse arrastado a cómoda para a parede e a mesa de jogo, para um canto. E vá, não precisa lavar a loiça, nem ir buscar coisas à cozinha.

Tem o pessoal que fica na varanda e na ante-câmara cá de baixo a fumar, pessoal que fica na sala de jantar a conversar e a beber e pessoal que fica na sala de estar. Tem um cantinho mais reservado, no meio do corredor, onde cabem duas pessoas.

O tecto da sala de jantar é de madeira e as paredes de tijolinho. Uma cómoda que ocupa toda a parede, dois espelhos, nenhum de frente para a porta, rola um feng shui básico, uma coluna linda e antiga também, e as cadeiras todas diferentes, de épocas diferentes.

Costas altas, costas baixas, palhinha, couro, e nada choca. Quadros de cavalos nas paredes, serigrafias, e o único sinal de modernidade é um anúncio luminoso da Absolut Vodca. Ou seria total e absolutamente retro. Lindo. A janela do fundo dá para a ante-câmara ao ar livre mesmo antes de entrarmos nas salas, depois de passar a cozinha, e a geladeira, que fica no corredor. A cortina de renda branca é absolutamente divina.

Só o chão, de ambas as salas, denuncia que o espaço é público, cinza, descaracterizado, parece concreto, falta-lhe assentar os tacos. Ou azuleijar…

Manu passa do violão para aquela coisa gigante que é maior que ele, sendo que ele não é muito alto, mas chega pra ele, pro Baixo Acústico, com arco. Parece um violoncelo gigante, mas de 4 cordas, “avô do violino, pai do violoncelo”.

A mão da mulata linda e bem-disposta, fica no pratinho enquanto a esquerda gira os botões e os olhos se fixam na tela do mac. É a aniversariante, em homenagem à qual se cacarejava na sala do lado, e o violino nunca teve um som tão animado nem o baixo acústico, que agora é tocado com os dedos todos.

Há sempre parceiros que tocam com o Manu. O Rafa Barreto é uma presença regular. A Mica e o seu violino também, cada um de sua vez. O pessoal espreita pela janelinha de rede da sala de estar porque o som é irresistível, não dou nem 5 minutos para estarem na sala de estar connosco. A janelinha fica ao nível do chão, na rua. Diz-nos o grande artista.

Manu, que estamos ao mesmo nível do pessoal do cemitério São Paulo, nossos vizinhos. Só que com mais ar, mais luz e mais vinho, digo eu…

Uma garrafa custa 38 reais, mas também se vende à taça, nunca me aconteceu… E vende-se cerveja, whisley, e outra coisas de beber tipo água. A entrada 15 e é impossível prever o que gastar em comida porque a Berenice nunca, nunca repete os pratos. Mas tem sempre entrada, prato e sobremesa, pelo menos. O ambiente é familiar e o miúdo, o filho adolescente de Berenice, e que me prometeu amendoins com casca, dá uma ajuda. E foi graças ao seu irmão caçula, e sua paixão louca pela música do Manu, que Berenice conheceu Manu, nos shows. O menino tinha 10 anos e a mãe acompanhava-o. Essa parceria nasceu daí.

Aconteceu todos os domingos durante uns 3 meses. Ontem foi o último Domingo fixo. Eles hão-de ir lá mais vezes, mas não tem data certa. Estava cheio, como da primeira vez que fui, e foi animadíssimo, como sempre.

Despedimo-nos da Berenice, que pelo menos naquele dia é quem recebe, e vamos embora, certos de voltar, só mais uma vez.

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2 Comentários leave one →
  1. Fernanda Campos Costa permalink
    18/11/2010 14:48

    Isa, já tens novas notícias sobre o local? Data certa para reabrir, coisa e tal? Fique com vontade de conhecer pessoalmente esse lugar. Quando for voltar, se souber, não esqueça de divulgar! Beijos!

  2. 19/11/2010 13:09

    Ah Fê 😦 nada ainda. O Manu tentou la um novo acordo com os gajos mas eles nada 😀
    mas assim que souber, eu grito, claro. vale mt a pena :/
    Bjo

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