Comunidade do JL na Bahia – e descobridores recentes dessa forma narrativa – anotem uma boa oportunidade de um papo agradável e de amplos horizontes sobre o tema: dia 03 de novembro às 20 horas, Edvaldo Pereira Lima participa do Café Literário – evento cultural da Bienal do Livro da Bahia, edição 2011 - que coloca em foco o Jornalismo Literário. O evento acontece no Centro de Convenções da Bahia, em Salvador. A mesa terá como mediador o professor Elieser César. Também participa do diálogo a jornalista Aline D´Eça.
Empolgado com a iniciativa dos organizadores em incluírem o JL na programação, Edvaldo destaca duas peculiaridades da cultura baiana – e nordestina como um todo – que pode render bons frutos futuros para o JL: “a oralidade solta e a riqueza narrativa da literatura de cordel; ambas marcas, quando adaptadas condizentemente para a arte narrativa da vida real, podem render muito. Podem dar um bem-vindo ritmo natural aos textos, iluminar histórias e encantar leitores. E é disso que precisamos cada vez mais, se queremos que o JL de fato conquiste a alma e o coração do leitor, oferecendo em troca matérias profundas de contexto e prazerosas de estilo.”
Mais informações:
http://www.bienaldolivrodabahia.com.br/programacao/cafe_literario
A vida por trás da cracolândia*
Jaqueline Corrêa
A vida deveria ser cheia de entusiasmo. Mas, em algumas realidades, ela é cheia de choro, lágrimas, sorrisos acanhados e angústia provocada pelo desprezo. E também é rodeada por outras vidas que assemelham-se entre si. A vida aqui tem forma. E tem nome. Cracolândia é o lugar que reproduz a sub-humanidade de pessoas sem identidade, que são conhecidas e reconhecidas por um predicativo julgador: viciados.

Desconfiados, alguns usuários se aproximam devagar. Não se importam em fumar seus cachimbos na frente de estranhos.
Mas é quando o sorriso nu parece sumir, que a alegria de outras vidas chega para resgatar. O “A gente da Comunidade” é um grupo formado por voluntários que não medem esforços para estender a mão. Em meio à chuva torrencial que caiu sobre a cidade de São Paulo no último domingo, 27, pessoas vestidas de branco abrem o caminho para a luz em meio ao abismo escuro, residência das centenas de usuários de crack.
A luz na escuridão
Enquanto a forte chuva cai, os voluntários se viram para deixar o espaço da melhor forma para atender a todos da melhor maneira. Nas barracas armadas no meio da rua, serviços de manicure, cortes de cabelo, doação de roupas e sapatos, lanches, além de livros e jornais, de conteúdo espiritual, são distribuídos aos desamparados.
Quando a intuição forma um mestre
Flavia Vasconcelos
Eu vi da coxia. Lá estava Armando Macêdo, o Armandinho, com seu chapéu enfeitado por um lenço e a roupa preta, traje já bastante conhecido nas suas andanças musicais. Eu o vi da coxia testando os instrumentos: seus companheiros, o bandolim e a guitarra baiana, esgotando deles tudo o que poderia ecoar, como se os espremesse e os aproveitasse até a última gota de som. Deles saíram todos os tons possíveis e inventados pelo talentoso Armandinho. Era o ensaio do segundo dia do lançamento do seu primeiro DVD solo, o Pop Choro, no Teatro Módulo, em Salvador, comemorando os 45 anos de carreira do músico.

“Tudo o que eu faço é apenas fruto de tudo que já ouvi e aprendi na vida. Eu absorvo e transmito na música”, explica Armandinho. Foto: Ivan Erick
Depois de certificar-se de que todos os instrumentos estavam harmoniosamente afinados, Armandinho passa por mim, em direção ao camarim, e me chama para conversarmos. Afinal, estava eu lá, com o caderninho em uma mão e uma caneta na outra, à espera de uma entrevista com o alquimista musical.
Entramos no camarim ocupado por muitas pessoas: amigos e colegas de trabalho do músico, todos muito alvoroçados e ansiosos, afinal, o show já ia começar. Sentamos eu e ele, um de frente para o outro em cadeiras improvisadas. Armandinho é servido com uma dose de uísque com guaraná e iniciamos a conversa. Pelo tempo curto que tínhamos disponível, o roteiro da entrevista programado anteriormente teve que ser modificado. Comecei pelas perguntas mais pontuais e, se desse tempo, passaríamos para as mais reflexivas.
Apesar da pressão, Armandinho demonstrou total atenção às minhas dúvidas jornalísticas e fez questão de criar um ambiente e um tempo só nosso. Entre um gole e outro de uísque, ele ia me ouvindo e respondendo com entusiasmo às questões. Foi uma entrevista desmistificadora, porém só fez abrilhantar ainda mais o artista, que nunca deixou de ser o menino talentoso de Osmar Macêdo.
Sushi
Camila Galvez
Ele gostava de sushi, e era quase um ritual obsessivo. Toda sexta-feira à noite, saia da aula e rumava para o restaurante pequenino e quase sempre vazio naquele horário. Observava o sushiman preparar o rolinho, primeiro a alga, depois o arroz e por fim o peixe. Sentia cheiro de areia e de mar e de infinito enquanto observava o colorido do peixe se juntar ao branco do arroz e o escuro da alga.
Não gostava de molhos nem de nada que atrapalhasse o sabor. Achava um crime encharcarem o sushi com shoyu. Como ficava a experiência do sabor inusitado se se quebrasse o encanto molhando o arroz? Não, não era japonês, tampouco do Oriente, mas tinha certeza que em uma de suas muitas vidas havia vivido por lá.
Ele julgava gostar tanto e apreciar tanto aquela arte milenar simplesmente porque ela o lembrava da força do mar. Imperioso, poderoso, ruidoso, regido pelas mares. Mesmo diante de tanta força e poder, sabia ser simples ao abrigar a vida do peixe que serviria depois de alimento par ao homem. O mar, que era tão grande, ficava pequeno ali, naquele diminuto rolinho de sushi. Mas para ele era exatamente aí que morava a graça de se alimentar dessa forma e, de alguma maneira, sentir-se conectado com o mar. Leia mais…

